O fenômeno sonoro como revelação da vida

Ao longo dos anos, como músico e pesquisador dos sons, desenvolvi um intenso interesse pelo fenômeno musical e tudo que ele representa para a consciência humana. As perguntas que surgiram e que surgem incessantemente neste caminho são muitas e algumas delas acabam por remeter a questões fundamentais da existência. Foi buscando respostas a estas perguntas que cheguei a algumas constatações, ou melhor, pontos de vista a partir dos quais emergem visões claras e consistentes sobre certos fatos da realidade. Neste texto gostaria de expor a linha de pensamento que me levou a constatar a indissociável relação que se estabelece entre o tempo, o movimento, a vida e o som. A partir desta constatação o fenômeno sonoro e a própria música ganham uma dimensão que se mostra altamente reveladora das qualidades de um ambiente e dos seres nele inseridos. Ao mesmo tempo esta compreensão aponta para a possibilidade de “ouvir” a vida para além daquilo que pode ser ouvido por meio de nossos sentidos físicos. Assim, a audição ampliada pode tornar-se um caminho íntegro para o conhecimento de uma realidade que transcende aquilo que é percebido sensorialmente. Mas vamos partir do começo…

Todo aquele que observa um movimento qualquer, seja uma folha caindo, um carro que passa, uma mão que acena, notará que este movimento necessita de tempo para ser percebido. O movimento em si aparece como o fluxo de uma sucessão de estados ou posições de um ser ou objeto. Se suprimirmos o fator “tempo” tudo que teríamos seriam pontos estáticos, fotos instantâneas e isoladas das demais fotos de um objeto. Na verdade não existiria o antes e o depois nem a transformação, apenas o eterno e imóvel agora.

Se olharmos à nossa volta e observarmos como concretizamos nossa experiência do tempo, veremos que são os movimentos que nos possibilitam esta vivência. Nossos relógios nada mais são do que analogias aos grandes movimentos dos corpos celestes. Individualmente temos os movimentos fisiológicos da respiração, batimento e fluxo sanguíneo, os ritmos celulares e mesmo os movimentos dos membros, como, por exemplo, o andar. De modo mais preciso realizamos a percepção ordenada do tempo por meio de movimentos cíclicos regulares. A regularidade dos ciclos do sistema solar e sua confiabilidade garante que tenhamos uma percepção objetiva do tempo. Imagine se ao observar um por do sol não se tivesse a certeza de se e quando o sol nasceria de novo? O que aconteceria com nossa percepção do tempo? Bem, ainda teríamos nossos ciclos fisiológicos próprios, mas perderíamos o tempo social. Pesquisadores de cavernas que passam longos períodos sem referência à luz externa têm seu relógio interno altamente afetado, estabelecendo ciclos próprios independentes dos demais colegas.

Vemos assim que o elemento temporal está totalmente conectado com o processo do movimento e que não é possível haver uma coisa sem a outra: a existência do tempo implica em movimento e vice-versa.

Mas que relação estes dois elementos tem com o fenômeno da vida? Sabemos que tudo que tem vida, em alguma dimensão se move e abarca processos de movimento; portanto também está sujeito às leis do tempo. Nos animais e no ser humano se quisermos saber se um indivíduo está vivo ou morto observaremos a existência de sinais de movimento tais como respiração, circulação e movimentos corporais. Em se tratando do reino vegetal este movimento é bem mais sutil e acontece no fluxo da seiva, nas trocas gasosas e no lento e contínuo processo de crescimento. De modo genérico são estes parâmetros que separam o estado orgânico do inorgânico. Aquilo que vive necessariamente nasce, respira, se alimenta, cresce, elimina, se reproduz e morre. Todos estes processos acontecem no tempo e implicam em algum tipo de movimento. Vale ressaltar que o conceito de vida para o senso comum é a capacidade de automovimento. Ou seja: a capacidade de produzir o movimento e se manter no fluxo do tempo a partir de si mesmo.

Mas como entender os movimentos naquilo que consideramos reino mineral, o reino do inorgânico? Ninguém negaria a existência dos movimentos das placas tectônicas e seus consequentes terremotos e erupções, o fluir das ondas do mar e do vento. Afinal, são seres vivos? E o movimento dos elétrons e demais partículas subatômicas? E os grandes movimentos celestes? Diante de tais questões só podemos concluir que a vida é um fato ubíquo que permeia todo o universo, desde a sua mais ínfima partícula até o mais amplo processo cósmico. De algum modo em algum nível tudo esta em movimento, tudo flui no tempo e tudo, portanto, é Vida. A diferenciação que costumamos fazer entre o mundo orgânico e o inorgânico associando-os respectivamente à vida e ao morto, considero neste contexto como diferenciações qualitativas e de escala de uma Vida maior. O movimento e o tempo que fogem da dimensão humana, por serem muito grandes, muito pequenos, muito lentos ou muito rápidos, são percebidos por nós como algo estático, fora do tempo e sem vida. Mas isso, podemos dizer, é uma questão de “zoom”, uma ilusão causada pela nossa limitação perceptiva.

Ao lado do movimento, do tempo e da vida, vamos olhar agora para o elemento sonoro e ver que relação este tem com os primeiros.

Primeiramente podemos caracterizar o som como uma vivência da alma relacionada a uma representação na consciência de processos vibratórios acústicos externos. Por vibração acústica entende-se a propagação de ondas de pressão em um meio; este pode ser sólido, liquido ou gasoso (portanto não pode existir no vácuo). Para que haja esta percepção sonora é necessário que um órgão de sentido faça a “tradução” de um processo acústico (mecânico) em um impulso nervoso que será interpretado no cérebro – base física e fisiológica da nossa consciência. Nosso ouvido, com sua refinada e sutil fisiologia cumpre parte deste processo, mas não é ele que de fato ouve. É a partir do percurso complexo que o impulso nervoso traça no nosso cérebro que emerge na consciência a percepção propriamente dita. Esta percepção que se dirige ao eterno observador dentro de nós é recebida em diversos níveis, desde uma suave sensação de movimento, a evocação dos mais variados sentimentos até o reconhecimento de um significado que revela a essência do fenômeno percebido. Devemos reconhecer também que a impressão recebida do mundo externo é altamente modulada por nossos próprios processos e memórias subjetivas. Aquilo que de fato ouvimos, os sentimentos que nos evocam e seu significado podem ser tingidos por toda sorte de experiências pessoais e mesmo por nosso contexto histórico-cultural. É importante ainda mencionar que não é todo processo vibratório acústico que pode ser representado na nossa consciência. Nosso ouvido possui limitações e apenas uma faixa restrita das infinitas possíveis frequência é captada e vivenciada como som pelo ser humano. No reino animal cada espécie tem um faixa específica de freqüências que podem ser percebidas como som. A título de exemplo podemos citar o cachorro e de forma excepcional o golfinho que podem ouvir sons muito mais agudos que nós. Os elefantes por outro lado escutam graves bem além do nosso limiar auditivo nesta direção.

Numa segunda abordagem podemos reconhecer que sons, ou pelo menos sua representação, podem ser evocados internamente sem a dependência de um fenômeno acústico externo. Toda pessoa é capaz de cantarolar mentalmente, ou ouvir interiormente uma canção conhecida. Os compositores se valem desta capacidade para criar suas peças musicais. É da sua imaginação sonora que fluem as frases, harmonias e ritmos que dão a luz no berço da consciência às suas criações. Se é lícito chamar esta realidade sonora interior, desvinculada de uma percepção externa, de “som”, é uma questão que ainda precisa ser investigada. Todavia este fenômeno sem dúvida pressupõe um movimento interno e parece inegável que ele tenha uma realidade “sonora” capaz de mobilizar a alma tanto quanto a manifestação originada externamente.

Neste ponto da discussão acredito estarmos suficientemente respaldados para iniciar um processo de síntese.

Vimos que o movimento, o tempo e a vida são fenômenos coexistentes e indissociáveis. Som por sua vez se manifesta como “tradução” de um movimento; seja ele um movimento acústico externo ou um movimento sutil da nossa própria alma. Num sentido abrangente tudo aquilo que se move pode ser entendido como um som potencial. Nossa percepção só consegue tornar apreensível uma parte pequena destes possíveis movimentos existentes no universo. Na verdade, a grande maioria é muito lenta ou muito rápida para o nosso ouvido captar.

Quando nos deparamos com uma paisagem na natureza, reconhecemos seus contornos, suas cores, os seres que ali habitam. Percebemos também os sons desta paisagem, sejam eles produzidos por animais, pelo vento, pela água ou pela ação do homem. Podemos relacionar diretamente estes sons com a dimensão da vida deste lugar. Esta relação é bastante clara no que diz respeito aos sons acima mencionados, pois estes sons são decorrentes do que se movimenta na paisagem e nos seus habitantes e movimento implica em vida.

Num ambiente urbano não é diferente. Os sons das máquinas, os ruídos e as vozes das pessoas em um escritório ou numa rua, são resultado do movimento que ali acontece. Se fecharmos os olhos e observarmos perceberemos toda a dinâmica de fluxos e intensidades do que vive no local e qualitativamente poderemos avaliar os processo de vida que ali se manifestam.

Se comparamos a sonoridade destas duas paisagens precedentes com aquilo que podemos ouvir em um deserto, de forma direta perceberemos quão diferente é a qualidade e a intensidade da sua vida. A sua atmosfera de quase silêncio exigirá muito mais acuidade e abertura auditiva para que se perceba a dimensão da vida deste lugar. Ao mesmo tempo esta sonoridade sutil pode revelar uma profundidade e amplidão surpreendentes.

Se levarmos adiante esta linha de pensamento podemos vislumbrar todo um mundo perceptivo que se coloca para além do audível. Como foi mencionado anteriormente, os movimentos lentos e grandiosos assim como os muito rápidos e sutis são sons potenciais; se tivéssemos um órgão de percepção ilimitado, teríamos a capacidade de ouvi-los. Neste sentido é que podemos entender o conceito de “música das esferas celestes” assim como o da “dança dos átomos”, ambos sons potenciais velados pelo limiar da audição natural. Para que possa se ampliar nossa capacidade auditiva e cognitiva, devemos chamar em nosso auxílio justamente a capacidade de ouvir interiormente. A audição criativa interna não está sujeita às limitações impostas pela cóclea e toda a organização fisiológica do ouvido. Ela pode ouvir inspirativamente em espaços e tempos amplos e traduzir para o âmbito audível os movimentos e processo de vida que normalmente se subtraem à nossa consciência. Quando esta percepção se expressa em uma forma artística, temos então o surgimento de uma manifestação musical. Se por um lado os sons do ambiente nos contam sobre a vida explicita de um lugar, a música que é inspirada pela percepção intuitiva dos movimentos ocultos da natureza fora da nossa capacidade perceptiva, pode ser entendida como a revelação da grande vida que tudo move no fluxo do tempo do universo.


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