O processo da audição, o meio ambiente e a música

Considerações básicas para uma ecologia sonora

por Marcelo S. Petraglia

Em plena era do despertar da consciência ecológica, somos chamados a observar e cuidar de tudo que nos cerca. Percebemos que somos ao mesmo tempo os causadores dos desequilíbrios ambientais e também os que sofrem, juntamente com a natureza, suas consequências. Sabemos, entretanto, que depende de nós mudar o rumo das coisas e que muitas vezes são com as pequenas ações que estão ao alcance da nossa mão, que fazemos a diferença.

Um dos aspectos mais sutis do meio ambiente é o elemento sonoro. Ele não é visível, não tem cheiro, não ocupa espaço, mas está a nossa volta 24 horas por dia. Vivemos imersos em som e simplesmente não temos como evitá-lo, uma vez que as vibrações acústicas que permeiam o espaço tocam todo o nosso corpo. De fato, todo o corpo é um grande órgão receptor sonoro e o ouvido, propriamente dito, é o ponto focal do processo de audição.

Devemos também entender o elemento sonoro como uma manifestação de pura transmissão de energia que pode carregar um sentido. Sabemos que, por exemplo, uma explosão libera luz, calor, movimento e som. Ou seja, o processo vibratório que corre o ar a partir da detonação, é consequência da liberação da energia contida no explosivo. Esta vibração é puro movimento de moléculas. Ao encontrar um órgão sensório capaz de interpretá-la, ela produz na alma do observador uma sensação sonora e comunica uma mensagem, colocando o observador em contato íntimo com a essência motivadora do fenômeno.

O caminho do processamento da informação vibratória, do momento em que ela toca nosso ouvido externo, até a percepção consciente do som, pode ser compreendido em várias etapas: em princípio, temos o movimento aéreo atuando sobre o Tímpano. Este transmite a vibração aos três pequenos ossos do ouvido médio, que funcionam como um conjunto de alavancas amplificando a força do movimento. Este impulso é levado através da janela oval ao líquido que flui dentro da cóclea no ouvido interno. O movimento deste líquido age sobre as células ciliadas que transformam seu movimento em reações bioquímicas e em seguida em impulsos nervosos que serão transmitidos pelo nervo auditivo e processados no cérebro. Vale a pena ressaltar que até este ponto não é correto falar em som ou sensação sonora, pois todo este processo ocorreu de modo inconsciente e sob forma de movimento mecânico-químico-elétrico. Somente quando chega ao cérebro é que a mensagem começa a surgir em nossa consciência. De forma resumida podemos dizer que num primeiro momento simplesmente percebemos que se trata de uma informação no córtex auditivo primário. Aqui a mensagem é codificada para em seguida ser levada ao córtex auditivo secundário (região de Wernike). Neste ponto de fato ouvimos o som e estabelecemos suas relações com nosso “histórico sonoro-musical” através das áreas de associação corticais. Como final do processo este impulso nos leva a uma expressão individualizada e pessoal, a consumação do ato cognitivo. Esta expressão pode se manifestar como um balançar de cabeça, um piscar de olhos ou algo ainda mais sutil.

Tendo esta resumida descrição do processo auditivo como pano de fundo, pensemos agora na relação que temos com o ambiente sonoro. Num primeiro momento, reconhecemos que apenas uma pequena parte das informações vibratórias que nos rodeiam são totalmente processadas pelo organismo da audição (entendamos por organismo da audição, todo o trajeto acima exposto). Como dito, somos tocados por um imenso numero de impulsos vibratórios acústicos, mas estamos conscientes apenas de alguns. Neste mesmo momento podemos parar e ouvir com atenção todos os sons que “estavam lá” mas que simplesmente não estavam sendo percebidos. Uma pergunta fundamental que nos é colocada neste ponto da discussão é: o que acontece com todos estes “sons” que não estamos conscientemente percebendo? Uma analogia com o processo de alimentação pode nos indicar uma resposta razoável para esta questão. Quando ingerimos algo, mas não completamos o processo de digestão, sofremos com isso. Podemos ter toda sorte de problemas gástricos e intestinais, falamos também em intoxicação. A informação vibratória não digerida se torna em nós algo parecido. Ela fica em nosso subconsciente como um “lixo sonoro”, algo que trouxemos para dentro de casa, mas que não processamos plenamente. O processar aqui se refere a dar sentido e integrar a mensagem sonora com nosso ser. Naturalmente isso depende de nossa capacidade e “abertura” auditiva. Em se tratando da apreciação musical este ponto de vista pode ser altamente elucidativo. Porque algumas expressões sonoras são MÚSICA para algumas pessoas e para outras não? Digo que tudo depende da capacidade da pessoa integrar e dar sentido àquela expressão sonora, da capacidade dela perceber a ordem do fenômeno e separar o ruído da real mensagem. Por este ponto de vista, podemos definir três tipos de Ruído:

1. todo impulso vibratório que toca nosso órgão sensório, mas que não aflora à consciência.
2. todo impulso vibratório que chega a se manifestar em nós como percepção sonora mas que não integramos plenamente ao nosso ser por não reconhecer sua mensagem e ordem intrínseca.
3. toda manifestação sonora que invade indesejada e impositivamente nosso espaço auditivo, caotiziando-o e cerceando sua liberdade de escolha.

Ao olharmos nosso meio ambiente por este ponto de vista, percebemos que de fato estamos rodeados de “lixo” e, pior ainda, estamos cheios de “lixo”.

Todavia, temos também nossos hábitos de higiene. O sono é sem dúvida a grande oportunidade que temos de fazer uma “faxina” diária em nosso ser. Repousar em silêncio dá a oportunidade ao nosso corpo de processar sem estresse as informações vibratórias que ficaram a deriva dentro de nós. Fazer e ouvir música de qualidade também é um modo de reordenar os impulsos vibratórios internos. No mais, podemos sempre, assim como cuidamos da nossa alimentação, cuidar da nossa “alimentação sonora”. Ambientes com baixa intensidade e diversidade sonora são sem dúvida mais amigáveis e fáceis de digerir, do que ambientes sonoramente saturados. O grau de ordem ou desordem dos sons à nossa volta também é um fator importante para a nossa saúde auditiva. Quanto mais complexa e caótica a informação vibratória mais ela exigirá de nós para ser integrada. A boa música é neste sentido aquela que desafia e instiga nossa audição a decifrá-la, mas mantém-se dentro do limite de nossa capacidade para tanto. Ela força e exercita nossa escuta a se expandir, mas somente até o ponto em que esta ainda consegue percebê-la como música. Quando passamos este limite, a comunicação se perde e tudo que nos resta é ruído.

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