A serviço da música

por Anna Melanie Schwark Metzler (Anni)

No palco, um cravo com sua banqueta, uma cadeira e um arranjo de flores. Introspectivas, duas grandes personalidades neste simples cenário. Para quem sabe. Para quem não as conhece, pouco prometem. Gustav Leonhardt sentado em frente ao cravo. Frans Brüggen senta-se com sua flauta de frente para a plateia. Não tecem contato visual nem com o público, nem com a câmera, nem um com o outro. Movimento, quase nenhum

A atitude humilde, quase tímida, não revela que ambos se tornariam importantes regentes anos depois. Neste momento de vida, concentravam-se em tocar música antiga da forma mais genuína possível. Os dois são holandeses, musicólogos, professores universitários. Brüggen (1934) como flautista e Leonhardt (1928 a 2012) como tecladista são considerados dos mais consagrados intérpretes especialistas em música antiga do século XX.

Com um sutil sinal de cabeça de Brüggen o concerto começa. O som da sua flauta doce soprano, instrumento tão singelo, irradia pela sala e toca a alma do espectador, iluminando-a. Leonhardt o acompanha com esmero.

Estamos em 1966. A gravação conta com poucos recursos técnicos; sem cortes, revela a beleza nua do desempenho dos artistas. Sem maquiagem. Poucas pequenas “imperfeições” não só revelam o real nível da apresentação, como a tornam única e ainda mais bela.

Apresentam a sonata em sol maior de Willem De Fesch (1687 a 1761), compositor e violinista virtuoso, também holandês. Viveu na Inglaterra a partir dos 58 anos, onde tocou com a orquestra de Händel. Seu estilo foi influenciado por esse compositor e por Vivaldi, com
Brüggen permanece, do princípio ao fim, sentado, de pernas cruzadas, com as costas curvadas para a frente e um olhar vago, direcionado para o chão. Todos os seus sentidos estão focados tão somente no universo sonoro. Não há partitura à sua frente. A sonata parece sair do seu íntimo, permeada de rara sensibilidade, com virtuosismo admirável. Cada tom é carregado pelo seu primoroso fluxo de ar. Os dedos ágeis, de movimentos precisos, dominam o instrumento. Os braços e o tronco acompanham a expressão musical de forma natural. O mais tocante é o som de qualidade envolvente, calorosa e luminosa que o artista desperta com a sua flauta. Brüggen desafia a dificuldade técnica da peça, toca-a em audacioso andamento e acrescenta adornos e variações. A apresentação termina. A alma ressoa no som, que preenche o silêncio por longos minutos.

Os dois exímios intérpretes reúnem humildade, virtuosismo, expressividade e sensibilidade. Um presente para ouvidos atentos.

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